O pensar muito e a roda de samsara

“Pensar que podemos encontrar algum prazer duradouro e evitar a dor é o que o budismo chama de Samsara, o ciclo inútil que gira e gira, infinitamente, e nos causa tanto sofrimento”.

A frase é da monja Pema Chödron no livro Quando tudo se desfaz, quase uma bíblia pra mim. É aquele livro que sempre pego pra ler quando nada parece estar bom.

O termo sânscrito Samsara, que em tibetano é khorlo, pode ser entendido como girar em círculos, como uma roda que gira constantemente na mesma direção. “Temos a sensação de movimento e uma sensação de mudança, mas, na verdade, estamos apenas reciclando os mesmos velhos padrões mentais e emocionais em diferentes formas”, explica de maneira muito compreensível Yongey Mingyur Rinpoche no livro Alegre Sabedoria (leiam, é muito bom!).

E é justamente nessa roda que eu caio quando penso demais. Parece que estou chegando a uma conclusão incrível e inovadora mas, na verdade, o resultado prático é o mesmo. E não estou falando de pensamentos para mudar o mundo, mas aqueles que vêm nas decisões do dia a dia. Vou dar um exemplo prático: faço um treino funcional no parque. Sempre que sou desafiada a fazer um movimento novo, e principalmente se esse movimento envolver ficar de ponta cabeça, crio todo um repertório de medo, não consigo, vou cair e quebrar o pescoço. O resultado é que acabo paralisada e não faço o movimento. E isso também acontece quando tenho uma ideia, quero mandar um e-mail de trabalho e por aí vai. São tantos questionamentos que o pensamento se torna paralisante. É como se você puxasse um fio sem fim de hipóteses (negativas). O resulto é o bloqueio.

Ao longo dos meus 40 anos de vida, sempre achei que pensar era algo que só tinha o lado bom. Até que comecei a meditar um pouco, ler sobre meditação e sobre alguns conceitos budistas. Estes estudos me ensinaram que pensar demais não é bom. Porque a via é impermanência. “Não há bem que dure para sempre e nem mal que dure a vida inteira”, dizem por aí. Pema Chödron diz em seu livro “Estar imerso nesses quatro pares de opostos – prazer e dor, perda e ganho, prestígio e desonra, louvor e culpa – é o que nos mantém presos ao sofrimento do samsara. Sempre que nos sentimos bem, nossos pensamentos são geralmente sobre os aspectos de que gostamos – louvor, ganho, prazer e prestígio. Quando nos sentimos insatisfeitos, irritados e fartos, nossos pensamentos e emoções estão, provavelmente, girando em torno de algo como dor, perda, desonra e culpa”.

O exemplo que ela dá na sequência é o seguinte: se alguém disser “Você está velho”, sua reação será de prazer se esse for o elogio que quer ouvir. Agora, se for uma pessoa que está sempre em busca da juventude, a frase vai cair como uma bomba e será sentida como insulto. “Acabamos de ser criticados e experimentamos um sentimento de dor correspondente”, diz Pema. Ela segue explicando: “muitas de nossas variações de humor estão relacionadas com a maneira pela qual interpretamos o que acontece (…) Carregamos uma realidade subjetiva que está continuamente fazendo disparar reações emocionais”.

Bingo! Pensar demais traz essa realidade subjetiva à tona. E por mais que seja desconfortável, é uma sensação familiar, que nos deixa mais “seguros”. E aí, caímos na armadilha da roda de samsara. Nem sempre isso fica claro. É preciso tempo e estudo para perceber e entender. Uma vez percebido, é preciso ação para sair desta roda. E essa ação exige observação e disciplina. Ao perceber que está sendo levada pelos pensamentos é preciso voltar e agir sobre aquilo.

Tenho tentado fazer isso mas, confesso, não é fácil. Não tenho nenhum método para sair desse círculo vicioso. O que tento fazer é, no momento em que percebo que estou pensando demais e indo pelo caminho da samsara, me proponho a fazer algo prático. Pode ter a ver com o que me levou àquele pensamento ou não. O importante é agir e quebrar o ciclo. O problema de agir fazendo algo que não tem a ver com o o que gerou tantos pensamentos é que pode funcionar como uma fuga. Depois, quando voltar àquela questão, os pensamentos vão voltar também. Mas, na hora do aperto, quando os pensamentos estão dominando, é um recurso que uso para me tirar dessa espiral maluca que é a mente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *