Aceitar é ser passivo?

Há pouco mais de uma semana estou participando do Desafio #21diassendogentilcomvc. A proposta é praticar gentilezas consigo e, diariamente, postar essas gentilezas em um grupo de Whatsapp.

Pra mim, observar essa questão da autogentileza tem sido um exercício de aceitação. E, por isso, fiz a mim mesma a pergunta que está no título deste texto: “aceitar é ser passivo?” Todos os dias, quando penso se estou ou não sendo gentil comigo, vejo que o meu esforço para cumprir o desafio tem sido no sentido de aceitar situações, fases da vida, pessoas. E foi nesse contexto que comecei a refletir sobre aceitação e passividade.

Em geral, sou uma pessoa bem reativa. Diante de uma crítica, por exemplo, já saio me defendendo. Quando o que vem é uma autocrítica, já saio me punindo. E é nesse ponto – a autocrítica – que tenho tentado praticar a gentileza. Minha primeira postagem no grupo foi justamente dizer que eu aceitava o fato de ter vergonha de postar naquele grupo.

É difícil aceitar, seja uma vergonha, a ignorância em algum assunto, o fato de não gostar do que todo mundo gosta, não se encaixar em nenhum grupo ou estar fora do padrão. Aceitar parece fraqueza, mas não é. Já não aceitar é, muitas vezes, se punir. Porque é preciso um esforço imenso para se enquadrar, dosar palavras, demonstrar conhecimento.

Só que existe um lado da aceitação que pode parecer cruel. E é justamente a passividade. Ao aceitar pessoas e situações, nos sentimos subjugados ou passivos. É como se abandonássemos o nosso poder de ação para ficarmos parados esperando a vida vir e resolver aquilo que não resolvemos. Aceitar parece derrota.

Mas se pararmos para analisar mais profundamente, veremos que não é bem assim. O ato de aceitar não precisa estar travestido de passividade.

LUTA E FUGA

Quando falamos em aceitação, falamos em lidar com a nossa reação de luta ou fuga. Basta um problema para pensarmos em como podemos lutar contra ele ou fugir dele. Essa é uma receita perfeita para dor, sofrimento e angústia. A doença de alguém querido é um bom exemplo. É difícil ver o outro sofrer, mas precisamos aceitar. Só que isso não significa ficar assistindo a dor alheia de camarote, sem fazer nada. Diante desse fato incontestável, o que podemos fazer? Conversar, levar ao médico, ouvir? Cada um traça o seu plano de ação.

Aceitar pode justamente ser a chave para deixar a passividade porque tira um peso das costas e abre as portas para a ação. Quando a gente aceita que aquilo é o que é, fica desobrigado de ruminar pensamos e liberado para agir.

E QUANDO O PROBLEMA É A AUTOCRÍTICA?

Lá no desafio de 21 dias, minha missão tem sido lidar com a autocrítica. Entendi que é nesse ponto que eu mais preciso praticar a autogentileza. Ainda não tenho um super plano de ação para esses momentos. Mas o simples fato de ter tomado consciência disso já me ajuda a relaxar nestes momentos. Quando percebo que estou exagerando no chicote comigo mesma, penso que preciso aceitar que isso é uma autocrítica e não vai me levar a lugar algum. Dai, parto para olhar para o que causou tanta autocrítica e vejo o que posso fazer diante disso.

Recentemente, recebi o e-mail de um editor com comentários sobre uma matéria. E fiquei chateada. Minha primeira reação foi fechar o e-mail e deixar pra depois (fugir). A segunda, foi ler as pontuações e ficar dizendo pra mim mesma que o cara é chato e louco (luta). A terceira reação foi esclarecer as dúvidas dele e aí sim ponderar a mim mesma em que pontos eu acho que ele tem razão e em que pontos eu não concordo. Isso traz certo alívio e relaxamento porque faz com que eu diminua o chicote interno. Mas não posso dizer que é uma fórmula mágica, que resolve a autocrítica. Porque dentro de mim ainda fica a sensação de inadequação, de estar fazendo errado, de estar sendo julgada e criticada (o que é verdade, mas não precisa ser determinante).

Costumo dizer que a autocrítica é uma benção e uma tragédia. É uma bênção porque traz limites, parâmetros, ajuda a melhorar um trabalho ou a nós mesmos como pessoas. Uma tragédia porque pode ser paralisante. Podemos simplesmente nos achar pequenos e inferiores a partir do que os outros dizem.

A solução, a meu ver, é trabalharmos para sermos mais confiantes e, sim, para aceitarmos que somos o que somos. E, a partir disso, longe da passividade, vermos o que é possível ser feito para mudar as situações que realmente desejamos mudar. Aceitar, então, é liberdade!

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